Para
Aristóteles, o homem é um animal político. Entenda por que esta máxima
do fiosofo de Estagira é uma das bases da Filosofia Política
Por Daniel Rodrigues Aurélio
Por Daniel Rodrigues Aurélio
Zoon Politikon (Animal Político) é uma expressão utilizada pelo filósofo grego Aristóteles de Estagira (384 a.C – 322 a.C), discípulo de a Platão, para descrever a natureza do homem – um animal racional que fala e pensa (zoon logikon) – , em sua interação necessária na cidade-Estado (pólis).
O animal político aristotélico é um dos conceitos mais exaustivamente
estudados na filosofaa política e um dos argumentos fundamentais para a
organização social e política.
Magna Moralia
Um dos principais pensadores da chamada Escola de Frankfurt, o filósofo e sociólogo alemão Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969) publicou, no final dos anos 1940, uma coletânea de aforismos intitulada “Mínima Moralia”, em alusão à obra de Aristóteles. |

Em uma definição sumária, sem firulas e rodeios filosofantes, pode-se afirmar que, para Aristóteles, o homem é um animal político na medida em que se realiza plenamente no âmbito da pólis. Segundo Aristóteles, a “cidade ou a sociedade política” é o “bem mais elevado” e por isso os homens se associam em células, da família ao pequeno burgo, e a reunião desses agrupamentos resulta na cidade e no Estado (“Política”, cap.I, Livro Primeiro). Todavia, esta rápida acepção carece de uma explicação detalhada, indispensável para uma melhor compreensão do termo. Até porque, bem sabemos, o autor de “Política”, “Ética a Nicômaco” e a " Magna Moralia” deixou-nos acima de tudo um legado de extremo rigor lógico que não pode ser jamais desconsiderado.
Estagira
Fundada pelos colonos jônicos, a cidade de Estagira
pertencia à região da Macedônia. Sua fama se deve sobretudo por ter sido
o local de nascimento do filósofo tematizado neste texto.
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Para o filósofo de Estagira,
o homem é tão capaz de “desejos” e “afecções” (vontade ou alma
desiderativa) quanto está apto a adquirir inteligência (razão ou alma
racional). Complexo, o homem é o único zoon com capacidade para
agir orientado por uma moral, de modo que suas ações e juízos resultam
ora em vício, ora em virtude. Mas o que define essa moral? Existe nela
um conteúdo invariável?
Para começar a responder a essas indagações preliminares, é
preciso resgatar um pensamento aristotélico que remete ao núcleo do
modelo republicano: a sociedade precede o indivíduo. Em outras palavras,
o todo precede a parte. Para Aristóteles, um homem incapaz de “viver em
sociedade” ou alheio ao Estado é um “bruto ou uma divindade”. Em
algumas edições de “Política”, a frase dele é assim traduzida: “O todo
deve, necessariamente, ser posto antes da parte”. Isso, obviamente,
seria próprio de uma tendência gregária detectável em várias espécies.
Mas, de acordo com Aristóteles, o diferencial do homem está no fato de
ele não se unir aos demais apenas para a satisfação de seus desejos
imediatos (reprodução, proteção, alimentação, etc.), saciados no seio da
família ou da aldeia. Ele tende a ir além, dar vazão às suas
potencialidades, e nesse ponto entra a importância da pólis para sua
realizaçã
Evidentemente, e amparado pelos debates sobre o tema, creio ser
reveladora a ênfase dada por Aristóteles à comunicação humana. Ao
conceituar as coisas (significar, classificar) e estabelecer relações
mediadas pela palavra (retórica, argumentação), o homem detém a condição
de quantificar e qualificar (racionalizar) suas ações, locais e
objetos. E é também a partir da formação intelectual, moral e física que
ele encontra o equilíbrio vital para atingir a virtude. Em
Artistóteles, presumo, a virtude é agir conforme a razão dos valores
universais de uma determinada pólis. Ou seja, o que desejo como bom deve
equivaler àquilo derado bom para a minha sociedade. E sejam quais forem
as especificidades dessas regras, o bem comum será invariavelmente a
felicidade, a justiça, o bem viver na sociedade política.
Assim, o homem é um animal político, pois, na pólis, ele consegue
orientar-se pela conduta moral mediada por leis estabelecidas pelos
elementos intelectuais (adquiridos no processo de formação) e moral
(lapidada pelos hábitos racionais e pela experiência vivida). O homem é,
portanto, um receptáculo pronto a receber e experimentar ensinamentos e
vivências, sem os quais sua existência ficaria incompleta, sendo
comandada apenas pelas vontades. A propósito, eis a razão para a
prudência ser tão estimada na pólis aristotélica: somente com a
experiência e a inteligência consegue-se antever as consequências de um
ato desviante à moral do grupo.
É interessante perceber que o pensamento aristotélico não oferece
uma receita dogmática fechada. Depreendemos da obra do filósofo grego
que a grande chave da moral é o racionalismo, sendo o conteúdo dela
determinado pelo consenso da sociedade política. Arriscome a interpretar
que Aristóteles entendeu o mundo como uma combinação de acasos e
circunstâncias variáveis de acordo com o tempo, o espaço e as relações.
Em suma, o homem busca a pólis para viver a plenitude de suas
potencialidades enquanto espécie, e para suprir condições que outros
agrupamentos (família, aldeia) estão, quando isoladas, aquém de
proporcionar. A pólis não exclui a dimensão da família, na qual o homem
se reproduz e se abriga; na verdade, a pólis é a arena na qual ele faz
escolhas e se relaciona por meio de regras que podem leválo à virtude.
Observo, por fim, que Aristóteles não vê os homens como “naturalmente”
virtuosos; eles possuem, na realidade, os predicados necessários para,
na condição de animal político, obter a felicidade e o bem comum. O seu
sentido de completude.
ARISTÓTELES: PRECEPTOR DE ALEXANDRE, O GRANDE Integrante, junto de Sócrates e Platão, da “santíssima trindade” dos filósofos da Grécia Antiga ou Clássica, pilares do pensamento ocidental, Aristóteles foi preceptor do lendário rei da Macedônia, Alexandre, o Grande. Já reconhecido pelo seu gênio e saberes, Aristóteles assumiu, a pedido do pai de Alexandre, Filipe II, a educação do futuro imperador e comandante militar. |
REFERÊNCIAS |
ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Escala, col. Mestres Pensadores, 2008. LOPES, Marisa. Animal Político: estudos sobre justiça e virtude em Aristóteles. São Paulo: Singular, 2009. STRATHERN, Paul. Aristóteles em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. VINI, François. Compreender Aristóteles. São Paulo: Vozes, 2006. |
*Daniel Rodrigues Aurélio é
sociólogo, escritor, bacharel em Sociologia e Política pela Fundação
Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pósgraduado em
Globalização e Cultura pela Escola Pós- Graduada de Ciências Sociais
fonte: http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/23/artigo178984-1.asp