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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Deus e Quimeras Teológicas

Quanto mais a examinamos mais percebemos que suas quimeras teológicas só são apropriadas a nos embrulhar as idéias: metamorfoseando tudo em mistério, essa religião fantástica nos dá como causa do que não compreendemos alguma coisa que compreendemos menos ainda. Será explicar a natureza atribuir a causa dos fenômenos a agentes desconhecidos, a potências invisíveis, a causas imateriais? Pode o espírito humano se satisfazer quando se lhe diz para tomar como razão do que não entende a idéia mais incompreensível ainda de um Deus que jamis existiu? Pode a natureza divina, da qual nada concebemos que repugna o bom senso e a razão, fazer conceber a natureza do homem que já achamos tão difícil de se explicar? Indagai a um cristão, quer dizer, a um imbecil, já que só um deles pode ser cristão, qual a origem do mundo: ele responderá que foi Deus quem criou o universo. Perguntai-lhe então o que é Deus: ele não sabe nada a respeito. O que é criar: ele não tem a menor idéia. Qual a causa das pestes, das fomes, das guerras, das secas, das inundações, dos terremotos: dirá que é por causa da cólera de Deus. Indagai-lhe como remediar tantos males: com preces, sacrifícios, procissões, oferendas e cerimonias, responderá. Mas porque o céu está em cólera? É que os homens são maus. E por que são maus? Porque sua natureza é corrompida. Qual a causa dessa corrupção? O primeiro homem, seduzido pela primeira mulher, comeu uma maçã que seu Deus lhe proibiu de tocar. Quem mandou essa mulher fazer tamanha asneira? O diabo. Mas quem criou o diabo? Foi Deus. Por que Deus criou o diabo, destinado a perverter o gênero humano? Ignora-se... é um mistério escondido  no seio da Divindade, ela mesma um mistério.

Quereis prosseguir? Perguntai a esse animal qual o princípio escondido das ações e dos movimentos do coração humano? A alma, responderá. E o que é a alma? Um espírito. O que é o espírito? Uma substância que não tem forma, cor, extensão ou parte. Como uma tal substancia pode ser concebida? Como pode movimentar um corpo? Não se sabe, é mistério. Os animais possuem alma? Não. E por que os vemos, agir, sentir, pensar absolutamente como os homens? Aí se cala, não sabe o que dizer; a razão disso é simples: se empresta uma alma aos homens, é pelo interesse de fazer disso o que quiser, mediante o poder que se atribui sobre ela; ao passo que não tem o mesmo interesse em relação a dos animais e que um doutor em teologia seria bastante humilhado pela necessidade que teríamos de comparar sua alma à de um porco. Eis as soluções pueris que somos obrigados a conceber para explicar os problemas do mundo físico e moral.
SADE, Marquês de. Ciranda dos Libertinos. São Paulo: Marx Limonad, 1988. p.274-275
Fonte: http://www.portalveritas.blogspot.com.br/2013/10/deus-e-quimeras-teologicas.html#more

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Super-Herói e Filosofia

por Breno Lucano
Cada cultura com seus dogmas. Cada tempo, suas interpretações sobre teologia, antropologia e suas relações. E a Antiguidade possuia uma colocação que, para nós, cristãos, parece estranha e herética. Estóicos e epicuristas são unânimes ao igualar a vida do sábio aos dos deuses. Para eles, o sábio é o próprio deus que anda por entre os homens, se relaciona, se articula com as instituições, faz-se presente na história. Ele é alguém especial que possui em razão de seus atributos o legítimo dever de governar.
Mas o que significa para nós ser um deus? Nós nada criamos, não temos o dom de transpassar o tempo e o espaço. Somos marcados pela morte, dúvida, decadência e fraqueza tão ilustrados por Montaigne. Sob muitos aspectos a tentativa de ver a grandeza do homem impediu os antigos de ver sua pequenez e tragédia. 
Então, o que quiseram dizer com a associação entre homem e deus? Falaram em potência, falaram em possibilidades existenciais que, comumente, associamos unicamente ao divino. Ao atingir o estado de perpétua tranquilidade, reto julgar, extinção ou, pelo menos a capacidade de controlar o que há de passional no homem, todos esses predicativos são fortemente atrelados ao divino. E o homem que alcança esses estados é, portanto, divino.
As parafernálias ontológicas são lindas. Belíssimas!!! Mas me pergunto se são produtivas na atualidade, senão como um símbolo, infantil, talvez, mas ainda assim um símbolo.
Os que me conhecem há algum tempo sabem o quanto aprecio letras de músicas, filmes e livros como instrumentos de filosofia. Onfray dirá que se faz filosofia até mesmo com a gastronomia. Sendo assim, proponho uma música muito propício para algumas reflexões: Super-Herói.
Não deixo de associar essa música aos heróis de quadrinhos. Eles são bonitos, podem voar, se tornar o que quiserem. Vêem através de paredes, são invulneráveis. São deuses, nada há que não possam fazer. São nobres, sempre dispostos dar a própria vida pela defesa de inocentes. Corajosos, nunca temem a morte.
Mas de alguma forma são diferentes dos deuses antigos. Se pensarmos nos heróis e os compararmos com os deuses que foram venerados outrora, nossos heróis são humanos, demasiadamente humanos. Apesar de Zeus possuir sua fraqueza por belos corpos de mulheres e homens em Homero, o Zeus do culto popular não encontra paralelo na história. Ele é forte, invencível, combatente e vencedor do pai Chronos. Nossos heróis, por outro lado, choram. Alguns, como Batman e Arqueiro Verde sequer possuem poderes. São exilados, expulsos, foragidos de seu próprio povo, entregues à própria sorte. Mas suportam tudo, são heróis e dão o exemplo.
A aceitação da própria condição trágica é o ápice de qualquer filosofia. Entender que, a qualquer momento, estará morto e nada mais restará de nós senão o nome, e mesmo assim apenas por algumas gerações. Compreender que somos submetidos à sorte e às intempéries. Solidão, falta de esperança, desilusão. Schopenhauer representa de modo único esse pessimismo, esse sistema trágico do qual o homem faz parte: faça o que quiser, faça o que tiver que fazer, o homem sempre sofrerá.
E o que é sofrer senão andar na terra, renunciar ao belo mundo que os contos infantis nos preservam, onde todos se amam, não há fome, não há desigualdades sociais, não há morte? Nem sempre o herói sabe voar, às vezes até mesmo sangra.
De qualquer modo, o heróis não é aquele ser solitário, necessariamente. Cruzando a história, o herói encontra possibilidades inúmeras. Pontos, dúvidas, inquietações. E, em meio a tudo isso, se faz, se constrói, se modela de acordo com a sua vontade. Encontra o seu caminho, mesmo que tortuoso e esquivo. Alegra-se e lamenta-se, dorme-se e acorda-se, enamora-se. Deseja ir além das fronteiras, ao encontro de energias únicas, ser mais do que um rosto no jornal.

E não é fácil viver assim.

fonte: portalvertas